O Ambíguo e Esverdeado Cloro

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Para começar a falar sobre qualquer assunto, é necessário antes situar-se nele e, como o assunto desse post é o Cloro, vamos começar com … “como se sabe a existência do cloro?”. Bom … antes de 1774, o cloro, não havia sido isolado em sua forma elementar. Ele já era conhecido, porém apenas quando associado a outro elemento; como por exemplo o NaCl (cloreto de sódio) que é o sal de cozinha. Porém, no ano citado, o cloro puro foi obtido, por um químico sueco, e um dos maiores químicos da história – Carl Wilhelm Scheele.

Seu experimento se resume em imergir o minério MnO2 (dióxido de manganês, ou mineral pirolusita) em HCl. Neste caso, resulta a seguinte reação:

MnO2(s) + 4HCl(aq) → MnCl2(aq)+ Cl2(g) + 2H2O(l)

No início, ele pensou que o gás liberado fosse o oxigênio (O2), mas pelo fato do gás ser esverdeado, ter um odor diferente e por queimar a pele (ele tinha o estranho hábito de testar suas experiências em si mesmo), chegou a conclusão que não era o O2. Devido sua coloração, ele chamou esse novo gás de cloro (esverdeado), e hoje sabe-se que sua forma molecular é Cl2. Afirma-se que nada ocorreu com Scheele, pois o Cl2(g) em pequena quantidade, não fornece grandes perigos, mas quando se trata dele em excesso, coisas doloridas ocorrem.

O Monstro Verde

O livro “The making of the atomic bomb” de Richard Rhodes, defende que a ciência e a tecnologia foram “agentes militares” importantes caracterizados por fazer a diferença na Primeira Guerra Mundial. A primeira fase desta Guerra foi marcada pelo uso de trincheiras, onde os soldados ficavam dentro para que pudessem se proteger e atacar, mas eles não esperavam, que essa proteção de nada serviria contra o poderoso e mortífero cloro …

Conta-se que o primeiro uso militar do cloro partiu dos alemães, e foi liderado pessoalmente, pelo professor Fritz Haber – chamado de “o pai da guerra” (se quiserem saber um pouco mais sobre esse gênio polêmico, clique aqui). Os alemães, em Yprès na Bélgica, lançaram o citado gás contra tropas canadenses e francesas. Com isso uma imensa nuvem verde fez com que os soldados não soubessem se corriam dela ou se passavam por ela para chegar a um lugar, em que se pudesse respirar. O gás cloro é mais denso que o ar, então assim que ele foi lançado foi direto para as trincheiras e atingiu os soldados que ali estavam, buscando proteção …

A partir do momento em que o gás é inalado, ele toma o lugar do oxigênio, inibindo a respiração. Dessa forma as hemácias são penalizadas pela grande quantidade de CO2 (gás carbônico) fazendo com que o sangue se torne ácido e, consequentemente, alterando o pH. A falta de O2 no organismo, faz com que as células fiquem sem energia para realizar suas principais e básicas funções. Com esses ocorridos, a respiração é dificultada, assim como os batimentos cardíacos decaem.

O cloro irrita e resseca as vias respiratórias e diretamente os pulmões, pois nele se é formado o ácido hidroclorídrico, que em alta concentração, especificamente à 1.000 ppm, se torna fatal.

Mas o que realmente causa a morte do indivíduo que inala o gás é que pelo fato do cloro pertencer ao grupo de gases sufocantes e, como dito no parágrafo anterior, ao ressecar as vias respiratórias, como mecanismo de defesa o organismo produz um líquido nos pulmões resultando em um edema. Isso faz com que a pessoa morra afogada … sim … afogamento causado por seu próprio pulmão!!!! Se a intenção dos alemães era assustar, conseguiram! Pois houve cerca de 5 mil mortes e 10 mil feridos por intoxicação pela destruidora nuvem verde.

Por mais assustador que seja, isso não é nada, comparado com a experiência real. Para tentar entender o que de fato aconteceu, vamos ver o que o sargento Elmer Cotton, testemunha ocular do ocorrido, relatou sobre o caso:

“Na terra plana, tudo à nossa volta estava coberto por uma nuvem vaporosa branca esverdeada de gás cloro, de 1,5 a 2 metros de altura… mais adiante passamos por um posto médico – encostados na parede havia uma dúzia de homens – todos haviam sofrido ataque de gás – e a cor deles era preta, verde e azul, as línguas dependuradas e os olhos fixos. Um ou dois estavam mortos e os demais num estado em que a ajuda humana seria inútil, alguns tossiam um líquido verde que vinha dos seus pulmões.”

A foto principal do post é uma pintura chamada Gassed, de John Singer Sargente, e tenta retratar a situação dos soldados atacados pelo cloro na Batalha de Yprès. Notem a total invalidez provocada aos anteriores guerreiros, que agora tem de guiados pelas mãos de outros soldados. O quadro tenta mostrar, de forma bem mais leve que a realidade, a destruição física e emocional que os soldados sofreram pelo destruidor e terrível “mostro verde”.

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 Mas … o Monstro tem outra face

Apesar de ser difícil pensar em um lado positivo, e para que o cloro não fique como o vilão da história, é interessante apresentar seu lado bom, como por exemplo, o tratamento de água. Neste caso, o furioso cloro está na forma de substâncias mais “calmas”: o hipoclorito de sódio (NaClO) e a água sanitária (NaClO diluído em H2O). Estes sais possuem eficiência suficiente para desinfetar a água e alimentos, de forma que possa ser utilizada sem que haja preocupações em relação a doenças ou coisa semelhante.

No que diz respeito a água sanitária, ainda há o uso na limpeza doméstica incluindo sua ação alvejante, deixando o “branco mais branco”. Ela é obtida “borbulhando-se o Cloro livre em uma solução básica”, dessa forma:

Cl2 +  2 NaOH → NaClO + NaCl + H2O

Com o tempo o hipoclorito acaba liberando o temível Cl2,, mas de forma controlada, e sem grandes perigos (a não ser se a concentração for grande e o local sem ventilação, como um banheiro fechado …).. O Cl2 é um agente oxidante, e é responsável pela parte “agressiva”, que por muitas vezes deixa sua marca rasgando tecidos e, claro, como já dito, desinfetando e limpando.

Agora… O que não contávamos é que assim como o excesso de cloro pode matar, sua falta irá fazer o mesmo. Dentro do nosso organismo, existem várias funções as quais, nelas, o Cl associado a algum outro elemento é essencial (como Cl2, nunca!!!). Quando ligado ao potássio ou ao sódio, ele trabalha regulando os líquidos do organismo, fazendo com que esses fluidos sejam mantidos em equilíbrio juntamente com eletrólitos presentes. Há também a parte digestiva, onde o Cl está na forma de ácido clorídrico (HCl) dentro do estômago. O HCl, auxilia decomposição dos alimentos para que estes possam ser enviados ao intestino delgado. Já no fígado, o Cl ajuda e retirar resíduos.

Quando Wilhelm Scheele descobriu gás cloro, com certeza ele não imaginava o que estava por vir. Ao olhar para toda essa história hoje, ficamos espantados no que uma simples molécula, formada por apenas dois átomos iguais é capaz de fazer. O cloro é um elemento enigmático e ambíguo, pois pode matar milhares de pessoas com requintes de crueldade, na forma de Cl2, ou salvar milhões de vidas na forma de sais. O cloro é sem dúvidas um elemento, assim como vários outros, que serve tanto para o bem, como para o mal – a decisão está nas mãos de quem o usa.

  • Esse post foi essencialmente escrito pela Rayana Rocha, aluna do curso Técnico em Química – IFRJ – São Gonçalo, como parte do projeto “Popularizando a Química através de Produção de Material Digital” 
Referências 
Histórias Periódicas - A Curiosa Vida dos Elementos
Toxicologia Ocupacional 
http://aprendizdequimica.blogspot.com.br/2011/08/saiba-como-o-cloro-gasoso-age-no-corpo.html
http://br.innatia.com/c-minerais-pt/a-cloro-o-que-e-beneficios-propriedades-e-alimentos-que-o-contem-1266.html
Nerdologia #45 A Arma mais Mortal - https://www.youtube.com/watch?v=2jiWgsuLp8w