O destrutivo e indispensável Flúor

Tempo de leitura: 5 minutos

Sobre um elemento “muito possessivo” é o que vamos falar hoje. Mas como assim??? Quando estudamos as Propriedades Periódicas, uma das que mais se destacam é a Eletronegatividade, certo? Talvez vocês se lembrem que um elemento mais eletronegativo é aquele que consegue atrair os elétrons mais fortemente… E é aí que entra o Flúor! O Flúor é o elemento mais eletronegativo de toda a tabela periódica e, por isso, ele seria literalmente um “ladrão de elétrons”. A figura abaixo, que seria uma personificação do flúor, passa a ideia de “quão pouco simpático” pode ser esse elemento (obra da fantástica Kacie D).

Pois bem… o fato dele ter toda essa ambição por elétrons significa que ele é bastante reativo. Um exemplo disso é sua reação com cálcio, onde (alerta de spoiler!!) em Breaking Bad, o HF (ácido fluorídrico) é usado para sumir com um corpo (e isso ocorre várias vezes na série). Acontece que ele reage com o cálcio de maneira a “desaparecer” com os ossos do indivíduo. Mas, apesar de todo o poder o flúor, o ácido fluorídrico não seria o melhor ácido para esses “fins macabros”, uma vez que é considerado um ácido fraco.

Como já citado, o F é muito reativo (muito mesmo, sendo capaz de reagir até mesmo com os gases nobres!). Por isso esse “fominha” deu muito trabalho para ser isolado (na forma de molécula F2), porque ao mesmo tempo em que ele era dissociado logo reagia com outra substância. Porém apareceu alguém mais ambicioso que esse elemento. O químico francês Henri Moissan conseguiu isolar o F2 em um processo mais ou menos assim: ao passar uma corrente elétrica numa solução de HF e KF (fluoreto de potássio) os fluoretos oxidam (ou seja, eles perdem elétrons, por mais incrível que isso possa parecer!!!) e lá, finalmente, está o F2 em sua forma elementar como mostrado na reação abaixo:

2F → F2+ 2e

O F2 é um gás amarelo pálido e se ele consegue “derreter” ossos, podemos acrescentar que ele também é corrosivo. Além de Henri Moissan, muitos outros químicos tentaram isolá-lo mas falharam … e também pagaram um preço bem elevado. Alguns tiveram ferimentos muito graves!

Embora o flúor seja comumente citado como componente dos cremes dentais, não é uma boa ideia engolir a “pasta de dente”. Além do gosto ruim, os compostos fluorados presentes “não fazem muito bem à saúde” em grande quantidade. Apenas para vocês terem uma ideia … um tanto exagerada … se uma criança de 10kg comer todo o conteúdo de um tubinho de pasta de dente, ela pode morrer intoxicada pelos 10 ppm de flúor ali presente!

Outro tipo de intoxicação muito conhecida, e mais comum nas crianças é a fluorose que se dá pela ingestão excessiva de flúor causando assim manchas nos dentes quando em formação; ocorre que “o flúor muda a estrutura celular do enema dentário nos anos de formação, quando o dente está em desenvolvimento.” Ela é conhecida pela hipomineralização do esmalte e da retina do dente. Como assim? Nossa boca, ao contrário do que as pessoas pensam, não é uma parte do corpo “apenas mecânica”, mas sim que depende de vários processos para que possa funcionar da melhor forma. Um dos processos envolvidos para que a boca esteja em bom funcionamento é a desmineralização e a remineralização que nada mais é do que fases em que nossos dentes são “desfeitos e feitos novamente” da seguinte forma:

Neste caso, o cálcio (Ca2+) e fosfato (PO43-) são liberados e quando há remineralização significa que eles voltam ao dente. Consequentemente entende-se por hipomineralização pouco desses íons na boca, fazendo com que o dente fique exposto ao flúor, causando assim, a fluorose.

Porém, da mesma forma que o flúor pode enfraquecer os dentes, ele pode trabalhar ajudando. Parece impossível, não é? Então… Esses dois processos já descritos são fundamentais e acontecem somente quando tudo está “certinho”, e um dos fatores é o pH. Quando está abaixo de 7 – considerado ácido – dificulta muito o andamento do processo da desmineratlização/remineralização. Agora entra o lado bonzinho do flúor (porque todo vilão tem um lado sentimental), e ele faz com que o processo possa ocorrer independente do pH, favorecendo assim a saúde bucal. Um aspecto que merece ser ressaltado é que a nossa alimentação pode interferir em tudo quanto foi descrito acima. Assim como em alta concentração o flúor pode matar uma criança, afirma-se que em baixa concentração é um ótimo protetor dental contra as temíveis cáries, e em locais onde se usa o flúor como tratamento de água (sim alguns lugares usam o flúor, ao invés do cloro), estudos apontam que as pessoas que usam água fluorada realmente possuem menos cáries.

Bem… entre suas boas e más definições, o flúor nos faz lembrar do cloro, pois ambos os “irmãos halogênios” podem ser usados no tratamento da água, mas se ingeridos em grande quantidade causam intoxicação. Será este um problema da família 7A?

  • Esse post foi essencialmente escrito pela Rayana Rocha, aluna do curso Técnico em Química – IFRJ – São Gonçalo, como parte do projeto “Popularizando a Química através de Produção de Material Digital” 

 

Referências básicas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Flúor
http://www.infoescola.com/elementos-quimicos/fluor/
https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/saude-bucal/consumo-excessivo-de-fluor-pode-manchar-os-dentes-entenda-11013090.html
http://www.drrondo.com/fluor-faz-mal-sim-e-sua-saude-pode-estar-em-risco/
http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc08/elemento.pdf