A Trágica História do Dr. Fritz Haber

Tempo de leitura: 11 minutos

Por gentileza, deem uma olhada na foto deste senhor logo acima do post … permaneçam pelo menos 10 segundos olhando atentamente para ele. Olharam? O que vocês conseguiram observar? Um homem careca, com um olhar distante, e um óculos bem fora de moda? Talvez o tenham achado parecido com o Dr. Evil, vilão da série de filmes de paródia Austin Powers … Brincadeiras a parte, este homem se chamava Fritz Haber, era alemão, nasceu em 1868, em 1918 ganhou um prêmio Nobel … e se você tem comida hoje, muito provavelmente deve a ele!

O inimigo de Malthus …

No século XVIII o pastor e economista britânico Thomas Malthus fez uma previsão que colocaria medo em qualquer pessoa. Em termos simples, ele disse que se não houvesse um controle populacional, em alguns anos faltaria alimento para pessoas, uma vez que a taxa de crescimento populacional é muito maior que o da produção de alimentos pela agricultura. Em termos matemáticos, em seus ensaios, ele disse que o crescimento populacional cresce obedecendo uma progressão geométrica (P.G.), enquanto que a produção dos meios de subsistência cresce de acordo com uma progressão aritmética (P.A.). Essa hipótese, conhecida hoje com malthusianismo, já deveria ter sido concretizada, se não fosse a intervenção do protagonista desse post – Fritz Haber.

As plantas, que são o pilar de nossa subsistência, precisam de alguns nutrientes fundamentais para crescerem. Um deles é o nitrogênio. Os átomos de nitrogênio existem em abundância e de forma gratuita, em nossa atmosfera na forma de moléculas de gás nitrogênio (N2). O problema é que as moléculas de nitrogênio são muito estáveis, e por isso as plantas não conseguem obter os preciosos átomos de nitrogênio através desse gás. Algumas bactérias conseguem capturar esse gás e convertê-lo em nitritos, nitratos, amônio, ou outras formas que podem ser absorvidos pelas plantas, e usados em seu metabolismo. Esse processo natural, no entanto, não seria capaz de garantir o alimento para a explosão populacional do século XX, e ao que parecia Malthus estava com a razão.

No começo do século XX o genial Fritz Haber, juntamente com Carl Bosh, conseguiram frustar a hipótese de Malthus (para a nossa alegria). Juntos eles desenvolveram um método capaz de fazer o nitrogênio do ar reagir, e formar um composto que poderia ser usado pela plantas – a amônia. A reação é muito simples de descrever – gás nitrogênio, se combina com gás hidrogênio, resultando em amônia, como podem ver abaixo.

N2(g) + 3H2(g) → 2NH3(g)

Mas na prática essa reação não é tão simples … é necessário altas temperatura e pressão para que essa reação ocorra, e o rendimento nem é lá essas coisas. Além disso, é necessário o uso de catalisador, e vários “macetes” para que o melhore o rendimento, como a retirada contínua da amônia produzida para deslocar o equilíbrio. Mesmo não sendo perfeito, o processo Haber-Bosh, como ficou conhecido o método de produção de amônia, ainda é a principal forma que temos hoje de utilizar o nitrogênio do ar. A amônia posteriormente pode ser usada para formar íons amônio, e ácido nítrico, de onde podemos obter os tão importantes nitratos. Essa síntese permitiu que tivéssemos a nossa disposição os fertilizantes nitrogenados do solo, e com isso, a agricultura conseguisse produzir alimento para esse povo que não para de crescer! Até o momento o placar é 1 para Haber  0 para Malthus. Para mostrar a importância desse processo para a humanidade como um todo, Haber ganhou o prêmio Nobel de química de 1918, sob muito protestos como veremos mais adiante.

O genial Haber tem seu nome associado a outro grande cientista, Max Born. Os alunos de graduação em química devem conhecer o famoso Ciclo de Born-Haber. Este é um ciclo termodinâmico que nos permite, dentre outras coisas, determinarmos o valor “experimental” para a energia reticular. Quem quiser saber um pouco mais sobre o funcionamento do ciclo, pode clicar aqui que serão redirecionados a uma aula dedicada a explicar o funcionamento do Ciclo de Born-Haber.

Devemos muito a Haber … mas infelizmente o seu nome não está associado apenas ao Ciclo de Born-Haber, ou ao processo Haber-Bosh …

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O Pai da Guerra Química

A amônia não fui o único "filho" desse homem. Haber viveu no período da Primeira Guerra Mundial, e durante esse período dedicou sua vida, e usou todo seu brilhante intelecto químico para produzir armas para a Alemanha vencer a guerra. Mas ele não tentou criar qualquer arma, ele procurou criar armas químicas. Aqui vale uma ressalva ... é estranho, mas existe ética até nas guerras. O uso de armas químicas, tamanho o dano que causam, e a impossibilidade de se proteger, foi proibido, em acordo formal entre vários países desde o final do século XIX. É estranho pensar que bombas, fuzis, e canhões sejam "éticos", mas ... um gás tóxico gera uma morte bem agonizante. Sinceramente eu não consigo entender essa "ética". Não que eu ache que as armas químicas devam ser usadas, longe disso, na verdade são as guerras que não deveriam existir!

A Alemanha não estava muito preocupada com os acordos ... e era Haber que estava a frente dos projetos com armas químicas. Ele encabeçou a substituição do bromo pelo cloro (não como substituinte em um projeto de orgânica, mas como arma química). Este último com um efeito rápido e devastador, que queimava a pele e as mucosas dos soldados inimigos, e além de matá-los lentamente por asfixia. Ele esteve a frente do primeiro ataque eficiente com uma arma química, que matou, queimou, e feriu 5 mil soldados franceses. A partir dai ele se preocupou em fazer os derivados do cloro cada vez mais letais, mais mortíferos, e mais torturantes. Evoluiu até o mortífero gás mostarda. Esse gás, embora mortal, hoje é utilizado como quimioterápico, mostrando que o causa a morte ou a vida com a química somos nós (veja outros exemplos no artigo, A Química e o Mostro ...).

No auge de sua mente inescrupulosa, Haber chegou a criar uma lei empírica, que com base em suas observações, e conseguiu quantificar uma relação entre a concentração dos gases tóxicos, o tempo de exposição e a taxa de mortalidade!

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Um triste fim ...

Haber foi um homem genial, como poucos, mas usou sua mente para mal. Não achem que eu falo isso simplesmente por ele ter ficado do lado derrotado da Guerra. Os físicos do Projeto Manhattan, que culminou na bomba, para mim ficam no mesmo time (ao menos aqueles que sabiam do que se tratava o projeto). Uma postura bem diferente teve Niels Bohr, que quase foi preso por não querer o participar da Guerra. Mas voltando ao Fritz Haber, ele viu sua esposa morrer de desgosto por suas atrocidades. Clara Immerwahr, era uma mulher brilhante também. A primeira mulher a ter um título de doutorado pela Universidade de Breslau, na época. Deve ter apoiado as ambições do marido, mas quando viu a crueldade em seu olhar, cada vez que compartilhava a ideia de produzir um gás ainda mais mortal, implorava para que ele parasse.  As súplicas e lágrimas de uma mulher só funcionam em um homem apaixonado, e Haber, pelo visto, tinha a Guerra como "amante". Depois de tentar em vão, ela se matou com um tiro no peito. Pelo visto nem isso provocou o remorso do duro Haber.

O tempo passou ... e todo o esforço de Haber foi em vão, quando viu a Alemanha perder a Guerra, sua esposa morta, e seu nome na lama. É verdade que ganhou o prêmio Nobel, e que, como eu disse no início do post, devemos a ele boa parte da chamada Revolução Verde. Mas seu prêmio foi questionado pela comunidade científica. A síntese da amônia mereceria o prêmio, mas não um homem que dedicou boa parte de seu tempo e energia a criar armas cada vez mais letais.

Mas o pior ainda não foi isso. Haber sacrificou sua família e reputação em prol da Alemanha. Mas alguns anos depois, dentro da fragilizada Alemanha, o Partido Nazista toma o poder. E ai? E ai que Fritz Haber era judeu ... é ... agora ele teria de fugir da Pátria a qual dedicou sua vida. Chegou a se oferecer como assessor de guerra para a União Soviética (talvez não fosse tão patriota assim, ou ... quando é a vida que está em risco todo vascaíno diz que é flamenguista, ou vice-versa). Mas a cartada final ainda estava por vir. Haber desenvolveu um inseticida chamado Zyklon A, antes da guerra. Posteriormente uma empresa alterou a fórmula desse inseticida e criou o Zyklon B. Alguns anos após a morte de Haber (que morreu enquanto ia buscar refúgio na Inglaterra, que ele tanto queria "trucidar" na Primeira Guerra), essa versão 2.0 de sua criação foi usada nas câmaras de gás pelo Nazismo para matar milhões de judeus, alguns parentes do próprio Haber.

É ...

Para mim Haber é uma personificação do mito alemão do Dr. Fausto (que não é invenção de Goethe, embora tenha sido aprimorado por este). Um homem genial, que em busca de reconhecimento e poder, procurou métodos nada éticos. É como se ele tivesse vendido sua alma com suas pesquisas sobre armas químicas cada vez mais letais. Teve seu auge de reconhecimento e glória quando conseguiu o ataque eficiente com gás cloro, e no estrago que fez aos 5 mil franceses (acho que deve ter sido mais glorioso que o Nobel). Teve prestígio, e reconhecimento. Talvez naquele dia achasse que era imortal. Mas depois veio a conta. Assim como Fausto teve um triste fim, seu conterrâneo Fritz Haber, perdeu o prestígio, o poder, a família, a honra, e nem direto a estar em sua amada Alemanha ele não teve em sua morte.

Mais do que uma simples história, Fritz Haber é um exemplo de como uma pessoa pode usar sua genialidade para o bem dos outros, ou para o mal. E ele conseguiu fazer os dois. Não quero ser moralista, e falar que não devemos ter ambições ... e alguns acabam usando o que tem a sua disposição para consegui-las ... mas gostaria muito que usássemos nossos talentos, e conhecimentos, não apenas para poder e glória, mas para produzirmos uma sociedade melhor. Agora que o post acabou, por favor, voltem lá e vejam mais uma vez a foto de Haber, e tentem diante de sua foto, imaginar tudo o que ele fez (para o bem e para mal).

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*Este post teve como referência inspiratória o livro A Colher que Desaparece, de Sam Kean.