A química e o monstro …

Tempo de leitura: 9 minutos

Robert Louis Stevenson … escritor e poeta escocês do século XIX … autor de vários clássicos como a “Ilha do Tesouro”, e de “The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, que aqui no Brasil é mais conhecido como “O Médico e o Monstro”. Esse é um pequeno romance (nem sei se posso classificá-lo assim), que narra um caso bem peculiar – O Dr. Jekyll, um homem repleto de virtudes, produz uma droga que é capaz de externar todo o seu lado maléfico, o Sr. Hyde. Esta outra personalidade é, nas palavras do próprio livro, um ser único no universo, constituído apenas de maldade, e por isso descrito como arrogante, mesquinho, nefasto, selvagem … o romance se desenrola mostrando como o bom Dr. Jekyll leva uma vida normal de dia, e a noite faz seus crimes, dando vazão aos desejos egoístas e luxuriosos na forma de Sr. Hyde, e as trágicas consequências disso.

Esse romance teve várias adaptações diretas para o cinema, bem como tem inúmeras referências. Dentre elas gosto de citar a aparição de Dr. Jekkyl/Sr. Hyde em Van Helsing – O Caçador de Monstros (2004) e na Liga Extraordinária (2003). Em ambos os filmes, o Sr. Hyde é retratado como um monstro de proporções desumanas, perverso, e incrivelmente forte (esse é um detalhe interessante, pois no livro o Sr. Hyde é descrito como um homem baixo e atarracado). Outra referência, dessa vez na Marvel, é a clara relação entre Bruce Barnner/Hulk, que possuem uma relação bem próxima a de Dr. Jekkyl/Sr. Hyde. A Marvel faz uma outra referência a esse romance, porém mais direta e menos conhecida, com o seu vilão Mr. Hyde, que surge da porção original do Dr. Jekyll.

Ao longo dos anos, a estranha história Dr. Jekkyl/Sr. Hyde, foi correlacionada a transtornos bipolares, dupla personalidade, problemas com alcoolismo/drogas, etc. Mas nesse post eu gostaria de correlacioná-la com a química.

O lado Hyde da química …

Para a grande maioria das pessoas, o nome “química” está relacionado a coisas ruins – câncer, poluição, veneno, morte … . Quem já não ouviu que algo (um alimento,um remédio) faz mal por que tem “muita química”? Alguém já viu a imagem de uma indústria química associada a uma coisa boa? Por vezes, o símbolo que vem em nossa mente é uma caveira com ossos cruzados, ou um frasco de Erlenmeyer com um líquido verde fumegante.  É verdade que as pessoas tem seus motivos para ver a química com essa reputação ruim. Ao longo dos anos tivemos inúmeros “acidentes” químicos, como o lixo nuclear (aqui no Brasil teve o famoso caso do Césio-137); o desastre da Bahia de Minamata (Japão) que envenenou centenas de pessoas com mercúrio; o fármaco Talidomida, que era comercializado como remédio, mas resultou em inúmeras crianças com má formação congênita; derramamento de petróleo nos mares (como nossa Petrobrás já fez várias vezes); chuva ácida; organofosforados e muitos outros exemplos. No entanto, embora todos os casos citados acima sejam duras e vergonhosas verdades, o culpado disso não é a química, e sim a irresponsabilidade, muitas vezes promovida pelo lucro irracional, de homens e empresas. Esses sim, são os verdadeiros culpados.

As substâncias químicas, naturais ou sintéticas, simplesmente existem, e fazem parte do universo. Nada mais são que um aglomerado de átomos, como nós humanos. A mesma substância, pode ter as virtudes do Dr. Jekyll, ou a crueldade do Sr. Hyde. Na maiorias das vezes somos “nós” que decidimos isso. Vou citar alguns exemplos que extrai do livro Barbies, Bambolês e Bolas de Bilhar, de Joe Schwarcz.

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O Yin e o Yang molecular

Já ouviram falar na molécula de Morfina? Creio que sim. A morfina é uma molécula fantástica. Tem seu nome inspirado no deus do sono Morfeus, que também inspirou vários personagens, dentre eles o Morpheus de Matrix. Por anos a morfina, extraída da papoula, é comercializada no mercado negro na forma de ópio. Isso gerou inúmeras pessoas viciadas, que tiveram sua vida e de sua família destruída pelo uso dessa substância. O poder destruidor do ópio é tão grande, que no século XIX a Gã-Bretanha o utilizou, covardemente, para enfraquecer o povo chinês nas chamadas Guerras do Ópio.  Mas essa mesma morfina é usada como anestésico potente, para aliviar a dor de inúmeras pessoas enfermas, em especial de câncer. O meu pai faleceu de câncer gástrico, e teve de tomar comprimidos de morfina para aliviar um pouco seu sofrimento. Eu conheci a morfina em sua forma Jekkyl, mas outros a conheceram em sua forma Hyde …

Outro exemplo bem interessante é o do nitrato de amônio (NH4NO3), que pode ser usado como explosivo, e com isso destruir casas e matar pessoas. Mas o mesmo nitrato de amônio é um fertilizante, e seu uso ajuda a termos a produção de alimentos compatível com a demanda da população. A mesma substância pode ser usada para tirar vidas ou para manter a vida. Às vezes é Jekkyl, as vezes é Hyde. O gás cloro é um veneno, e pode provocar uma morte com requintes de crueldade (queimaduras, sufocamento …), mas também é usado na água, tornando-a adequado para o consumo. Graças ao uso do gás cloro na água nos livramos de doenças mortais como coléra e febre tifóide, etc (além de dar um gosto nada agradável a água).

O gás mostarda é menos conhecido que o gás cloro, mas também é extremamente venenoso. Na década de 40, no período da Guerra, um navio em Bari, contendo toneladas de gás mostarda foi bombardeado, e o vazamento levou a morte de muitas pessoas. A mesma substância mortífera, entretanto, tem propriedades biológicas interessantes, que permite que seja usado como quimioterápico (inclusive é usado até hoje no tratamento do sarcoma de Hogkins). O mesmo gás que matou dezenas de pessoas, tem ajudado a salvar vidas de pessoas com câncer.

Notaram como as moléculas que matam, prejudicam, provocam sofrimento, podem aliviar a dor, curar, permitir a vida? Os átomos são os mesmos, as ligações covalentes/iônicas são as mesmas, a interações intermoleculares são as mesmas. Quem decide o se a molécula será Dr. Jekkyl ou Mr. Hyde, se será Yin ou Yang, somos nós!

Nosso papel como professores

Quem já se enveredou pelo “belo mundo da química” deve achar que acabou de ler uma coisa óbvia (e talvez tenha perdido seu precioso tempo). Caso eu tenha passado essa impressão por favor me desculpem, mas infelizmente nem todo mundo sabe disso. A grande maioria da população acha que a química só tem a sua forma Hyde, e sua forma Jekkyl passa completamente despercebida. Não fazem a mínima ideia que o alimento que tem em casa, sua água potável, a roupa que veste, e muitas outras coisas básicas, só foram possíveis graças a química. O mais triste é que muitas pessoas que pensam assim tem o Ensino Médio (ou curso equivalente) completo! Passaram três anos de sua vida tendo aula de química toda a semana, talvez decorando nomes de compostos orgânicos; tentando diferenciar o que é calor de formação, combustão ou dissociação; memorizando números quânticos (o que é quântico mesmo?), mas não conseguiram perceber a importância da química em sua vida. Nesse aspecto o nosso papel como professor é fundamental. Muito acima do ENEM, do Vestibular, ou do indefinível “sistema”, está nossa missão como educadores. Nós como professores da educação básica devemos ensinar aos nossos alunos a importância e o papel da química na sociedade! Temos de mostrar para eles que a química é como o Dr. Jekkyl, passivo de erros e acertos, mas que quando se transforma em Sr. Hyde, é porque “nós” provocamos esse comportamento. Se o aluno for cursar direito, economia, ou artes, a ele não interessa o nome dos compostos orgânicos, mas como cidadão ele tem de conhecer o papel da química na sociedade e na natureza, da mesma forma que tem de saber usar a matemática básica, ou entender como os acontecimentos históricos influenciam hoje. Como professores universitários devemos sempre mostrar a nossos alunos, sejam eles futuros químicos industriais, engenheiros, bacharéis, farmacêuticos, ou professores, a sua importância e responsabilidade na sociedade. E isso não deve ficar a cargo apenas do professor de Química Ambiental não! É responsabilidade de todos nós!

Depois de séculos, é apenas recentemente que o homem passou a dominar, ou ao menos a entender, os átomos e as moléculas. Nossos jovens tem de entender que isso é um privilégio de nossos tempos, e nosso profissionais tem de entender a responsabilidade por trás disso. Então, se for possível ao leitor desse artigo, ajude a tirar essa imagem do Mr. Hyde da química, não por mero romantismo à química, mas por dar uma imagem realista de sua importância e seu papel vital na sociedade.

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  • Mayara Rodrigues

    Muito bom! Amo química e entendo perfeitamente os assuntos tratados, porém algumas coisas ainda não havia parado para pensar. As pessoas as matérias (seja ela qual for) são apenas para tirarem boas notas e passarem em um vestibular importante e se esquecem qual o real motivo de ter aprendido todas as coisas de qualquer matéria (até mesmo as mais “chatas”)…
    Parabéns por ser esse professor e que continue sempre nos fazer refletir não somente sobre a química, mas o motivo de estarmos aqui.

  • Mayara Rodrigues

    Muito bom! Amo química e entendo perfeitamente os assuntos tratados, porém algumas coisas ainda não havia parado para pensar. As pessoas acham que as matérias (seja ela qual for) são apenas para tirarem boas notas e passarem em um vestibular importante e se esquecem qual o real motivo de ter aprendido todas aquelas coisas…
    Parabéns por ser esse professor e que continue sempre nos fazer refletir não somente sobre a química, mas o motivo de estarmos aqui.

    • Antonio Florencio

      Oi Mayara, muito obrigado por sua participação, e fico feliz em saber que o post cumpriu um de seus objetivos. Continue acompanhando o blog …

  • Wesley Farias

    Parabéns pelo seu trabalho, professor!
    Eu, como futuro professor de química reconheço que seu trabalho é inspirador. Obrigado!